Sunday, June 28, 2009

RAOUL VANEIGEM

A liberdade do comércio(...) estimula um desprezo do indivíduo por si mesmo e pelos outros que constitui a virtude das transacções lucrativas.

Mas não decorrerá tanto mistifório do pavor dum único interdito, aquele que a economia decreta contra a fruição que a vida oferece sem nenhum pagamento?

O império do livre-câmbio difundiu assim pela terra inteira um humanismo do Direito, ao mesmo tempo que o direito de viver humanamente não se encontra em lado nenhum.

A única liberdade efectiva é aquela que a mercadoria se atribui, a de se trocar por si mesma e de não ter outro uso. O futuro assim conjecturado dilacera-se entre a vontade de viver e a força do dinheiro que a parodia e a nega absolutamente.

O totalitarismo económico deixou entretanto de precisar de homens políticos ou de ideologias. Bastam-lhe funcionários que administrem mundialmente a dívida pública e a falência dos Estados nacionais.

MANIFESTO ANTI-MERCADO


Não estou no mercado
já disse: não estou à venda no mercado
sou contra o mercado
o mercado mata
o mercado asfixia
o mercado faz de nós mercadorias
o mercado é uma epidemia
o mercado dá cabo de nós!
Morte ao mercado!

Não sou um sabonete
não sou uma chiclete
não estou na prateleira do hipermercado
o mercado é inimigo da vida
o mercado é inimigo do prazer
o mercado é estúpido
o mercado é ridículo
o mercado controla tudo
já disse: não estou à venda
não sou objecto de compra e venda
sou contra a troca
sou contra a bolsa
sou pela vida
o mundo assim não presta
eles é que são os parasitas

ESCREVO


Escrevo
tenho uma relação carnal com a caneta
sem a caneta não há escrita
e a gaja à minha frente
com as mamas quase ao léu
a reler o jornal
apetece comê-la
agora vai embora
deixa-me a sós com a literatura
talvez fosse demasiado burguesa
e eu estou com os surrealistas
insulto Deus e o Estado
proclamo blasfémias
decididamente nada tenho a ver
com os artistas do regime
com o beija-mão ao presidente da Câmara
embora, por vezes, me cruze com ele
é um ser humano
mas um ser humano
duma espécie muito diferente
da minha
definitivamente nada tenho a ver
com o negócio e com o poder
com toda a filha-da-putice
que dá cabo do mundo
isto não se pode resumir
aos bancos, à bolsa, ao mercado
não é possível a vida assim
tão castrada
não é possível ver o homem
reduzido a esta merda
não é possível

DIÁRIO


Um café sem ninguém. Só com a miúda do café que olha para o "Rebelde Way". Telenovelas. As miúdas revêem-se nas gajas da novela. E eu revejo-me em Henry Miller e noutros. Já escolhi a minha via. Sou um escritor, um poeta. Talvez esteja demasiado centrado em mim próprio. Talvez precise de voltar a inventar personagens, como fazia na infância. O mundo se me quer, se quer o meu talento, tem de me sustentar.

Saturday, June 27, 2009

DADAÍSMO

DADAÍSMO

Movimento artístico e literário com um pendor niilista, que surgiu por volta de 1916, em Zurique, acabando por se espalhar por vários países europeus e também pelos Estados Unidos da América. Embora se aponte 1916 como o ano em que o romeno Tristan Tzara, o alsaciano Hans Arp e os alemães Hugo Ball e Richard Huelsenbeck seguiram novas orientações artísticas e 1924 como o final desse caminho, a verdade é que há uma discrepância de datas respeitantes, quer ao início, quer ao final deste movimento, ou como preferem os seus fundadores, desta «forma de espírito» («Manifesto Dada», in Dada-Antologia Bilingue de Textos Teóricos e Poemas, 1983).

O movimento Dada (os seus fundadores recusam o termo Dadaísmo já que o ismo aponta para um movimento organizado que não é o seu) surge durante e como reacção à I Guerra Mundial. Os seus alicerces são os da repugnância por uma civilização que atraiçoou os homens em nome dos símbolos vazios e decadentes. Este desespero faz com que o grande objectivo dos dadaístas seja fazer tábua rasa de toda a cultura já existente, especialmente da burguesa, substituindo-a pela loucura consciente, ignorando o sistema racional que empurrou o homem para a guerra. Dada reivindica liberdade total e individual, é anti-regras e ideias, não reconhecendo a validade, nem do subjectivismo, nem da própria linguagem. O seu nome é disso mesmo um exemplo: Dada, que Tzara diz ter encontrado ao acaso num dicionário, ainda segundo o mesmo Tzara, não significa nada, mas ao não significar nada, significa tudo. Este tipo de posições paradoxais e contraditórias são outra das características deste movimento que reclama não ter história, tradição ou método. A sua única lei é uma espécie de anarquia sentimental e intelectual que pretende atingir os dogmas da razão. Cada um dos seus gestos é um acto de polémica, de ironia mordaz, de inconformismo. É necessário ofender e subverter a sociedade. Essa subversão tem dois meios: o primeiro os próprios textos, que embora sejam concebidos como forma de intervenção directa, são publicados nas numerosas revistas do movimento como Der Dada, Die Pleite, Der Gegner ou Der blutige Ernst, entre muitas outras. O segundo, o famoso Cabaret Voltaire, em Zurique, cujas sessões são consideradas escandalosas pela sociedade da época verificando-se frequentes insultos, agressões e intervenções policiais.

Não é fácil definir Dada. Os próprios dadaístas para isso contribuem: as afirmações contraditórias não permitem um consenso já que, enquanto consideram que definir Dada era anti-Dada, tentam constantemente fazê-lo. No primeiro manifesto, por ele próprio intitulado dadaísta, Tristan Tzara afirma, que «Ser contra este manifesto significa ser dadaísta!» («Manifesto Dada», in Dada-Antologia Bilingue de Textos Teóricos e Poemas, 1983) o que confirma a arbitrariedade e a inexistência de cânones e regras neste movimento. Tentam mesmo dissuadir os críticos de o definir: Jean Arp, artista plástico francês ligado ao movimento de Zurique, ridiculariza a metodologia crítica escrevendo, que não era, nem nunca seria credível qualquer história deste movimento já que, para ele não eram importantes as datas, mas sim o espírito que já existia antes do próprio nome; além disso Tzara afirma ser «contra sistemas. O sistema mais aceitável é, por princípio, não ter nenhum.» (Dada and Surrealism,1972). São conscientemente subversivos: ridicularizam o gosto convencional e tentam deliberadamente desmantelar as artes para descobrir em que momento a criatividade e a vitalidade começam a divergir. Desde o início que é destrutivo e construtivo, frívolo e sério, artístico e anti-artístico.

Embora se tenha espalhado por quase toda a Europa, o movimento Dada tem os núcleos mais importantes em Zurique, Berlim, Colónia e Hanôver. Todos eles defendem a abolição dos critérios estéticos, a destruição da cultura burguesa e da subjectividade expressionista reconhecendo, como caminhos a seguir, a dessacralização da arte e a necessidade do artista ser uma criatura do seu tempo, no entanto, há uma evolução diferenciada nestes quatro núcleos. O núcleo de Zurique, o mais importante durante a guerra, é muito experimentalista e provocatório, embora mais ou menos restrito ao círculo do Cabaret Voltaire. É aqui que surgem duas das mais importantes inovações dadaístas: o poema simultâneo e o poema fonético. O poema simultâneo consiste na recitação simultânea do mesmo poema em várias línguas; o poema fonético, desenvolvido por Ball, é composto unicamente por sons, com predominância de sons vocálicos. Nesta última composição a semântica é completamente posta de parte: já que o mundo não faz sentido para os dadaístas, a linguagem também não terá de fazer. Ball considera ser esta uma época onde « Um universo desmorona-se. Uma cultura milenar desmorona-se.» («A Arte dos Nossos Dias», in Dada-Antologia Bilingue de Textos e Poemas, 1983). Estes tipos de composições, juntamente com o poema visual, também assente em princípios simultaneístas, e a colagem, primeiro utilizada nas artes plásticas, são as grandes inovações formais deste movimento. O grupo de Berlim, mais activo depois da guerra, está profundamente ligado às condições socio-políticas da época. Ao contrário do anterior realiza intervenções politizantes, próximas da extrema esquerda, do anarquismo e da “Proletkult” (cultura do proletariado). Apesar de tudo, os próprios dadaístas têm consciência que são demasiado anarcas para aderir a um partido político e que a responsabilidade pública que daí advinha era inconciliável com o espírito dadaísta. Colónia e Hanover são menos significativos, sendo no entanto de salientar o desenvolvimento da técnica da colagem no primeiro e a inovadora utilização de materiais casuais e subalternos, como jornais e bilhetes de autocarro, na pintura do segundo.

Estes autores destacam-se da sociedade em que estão inseridos pela revolta, pelos valores expressos nas suas obras, pelas convicções que defendem e pelas contradições que apresentam, muitas vezes exemplo da vitalidade e humor dos criadores.

Dada tornou-se muito popular em Paris, para onde Tzara vai viver depois da guerra. Na capital francesa, ao contrário de Berlim e Nova Iorque, o movimento Dada desenvolve-se bastante no campo literário. Esta ligação foi muito importante para a génese do surrealismo que acaba por absorver o movimento no início da década de vinte. As fronteiras entre os dois movimentos são ténues, embora se oponham: o surrealismo mergulha as suas raízes no simbolismo, enquanto Dada se aproxima mais do romantismo; o primeiro é nitidamente politizado, enquanto o segundo é, na generalidade apolítico (com excepção do grupo de Berlim, como já foi referido). É também possível encontrar vestígios dadaístas na poesia de Ezra Pound e T. S. Elliot e na arte de Ernst e Magritte.

TRISTAN TZARA- MANIFESTO DADA

“Dada não fala, Dada não tem ideias fixas, Dada não apanha-moscas (…)
Dada faz mais vítimas num ano que a mais sangrenta das batalhas.
Dada existiu sempre. A Santa Virgem já era dadaísta.”
Dada nunca tem razão.”
Os verdadeiros Dada são contra Dada.”

TZARA, DADA


Tristan Tzara - DADA

Procuramos a força direita pura sóbria única não procuramos nada afirmamos a vitalidade de cada instante

Tristan Tzara, “Proclamação sem Pretensão”

DADA é um micróbio virgem
Dada é contra a vida cara
Dada
Sociedade anónima para a exploração das ideias
Dada tem 391 atitudes e cores diferentes segundo o sexo do presidente
Transforma-se – afirma – diz simultaneamente o contrário – sem importância - grita – pesca à linha.
Dada é o camaleão da modificação r´«apida e interessada.
Dada é contra o futuro. Dada morreu. Dada é idiota. Viva Dada.
Dada não é uma escola literária, uiva

Tristan Tzara , Dada Manifesto sobre o Amor Débil e o Amor Amargo, XIII

Wednesday, June 24, 2009

O HOMEM DOS BIGODES


O homem dos bigodes conta a vida
ao gerente
descreve-lhe a noite de S. João
passada em casa
sem as filhas
também eu passei a noite de S. João
em casa
é muita gente
não quis ir para o meio da confusão
para onde vai toda a gente
apanhar marteladas
e eu, definitivamente,
não estou com toda a gente
e o gerente já desceu o toldo
daqui a bocado quer fechar
e o homem dos bigodes
continua a falar
a descrever os convenientes
e os inconvenientes dos copinhos de vinho
o gerente fala baixinho
quase não se compreende
o homem dos bigodes fala do bacalhau
tem um discurso cativante
parece um bom conversador
apesar de passar muito tempo calado
em frente ao jornal
falta aqui uma explosão
uns foguetes para animar esta coisa!
Só há a conversa do homem dos bigodes
com o gerente
os homens dos bigodes estão em vias de extinção
a juventude só usa os bigodes com a barba
salvemos os homens dos bigodes!
O gerente volta ao trabalho
e o homem dos bigodes volta a ficar calado
reina um silêncio quase absoluto
e eu posso voltar à leitura.

ESCREVO E LEIO

Escrevo e leio
e, á medida que mais leio,
mais escrevo
é assim com Henry Miller
é assim com Garcia Marquez
o escritor dialoga com o poeta
o poeta vai ficando mais sábio
e despeja
despeja aquilo que quer transmitir
no papel
como se estivesse a falar
com o leitor
e o leitor navega
nas palavras do poeta
da leitura se faz a escrita
da escrita se faz a leitura
é este o processo
tem a sua magia
mas agora os olhos
estão cansados
vou-me deitar
volto amanhã.

Tuesday, June 23, 2009

INCOMPLETE TRANSLATION

I'm just the words I write
nothing more
I live in there
they are the spirit and the joy
they dance in the paper
they sing to me
and for the world
it's automatic
I don't interfere
they live for themselves
they are free
without bosses or central comitees
without limits.

SOU APENAS AS LETRAS

sou apenas as letras
as palavras que escrevo
nada mais
vivo nelas
elas são o espírito e a alegria
elas dançam na folha
cantam para mim
e para o mundo
é automático
não interfiro
elas vivem por si
são livres autónomas
sem chefes nem comités centrais
deslizam
sem limites.

Monday, June 22, 2009

À MESA DA CONFEITARIA


Escrever por escrever
volto à mesma fase
esta sexta o "Piolho" faz 100 anos
e eu aqui na confeitaria
o tolinho entra
e mantém-se atinadinho
o casal do lado devora tostas-mistas
há pessoal que me admira
e pessoal que me odeia
que foge de mim a sete pés
que fica incomodado com as minhas palavras
que só gosta daquelas coisas alinhadinhas
enfim,
amigos do Sócrates e da Manuela Ferreira Leite
botas de elástico
eu também era atinadinho
até aos 18 anos
depois deixei de sê-lo
embora voltasse a sê-lo
durante as longas depressões
e eis-me aqui, agora
à mesa da confeitaria
o mundo à minha mesa
a vida a rolar
mas não estou com o mesmo speed
dos últimos dias
há sempre altos e baixos
na minha vida
é verdade que também cultivo uma certa distância
a distância da estrela
a distância do artista
estrela?
A estrela está tesa
não há "cachet" para a estrela
apesar de ela, às vezes,
conseguir ser brilhante
outras não passa da mediania
enfim, um gajo também sente a coisa
há momentos em que se sente iluminado
em que se sente um senhor
um senhor sem escravos
num mundo de escravos.

Saturday, June 20, 2009

EZRA POUND

EZRA POUND - A Arte da Poesia

por Pedro Luso de Carvalho
.
.
Extraí dos ensaios de Ezra Pound, A Arte da Poesia, o texto que tem por título Linguagem; sem dúvida, a intenção de Pound era a de ajudar os mais novos a desenvolver a arte da escrita, já que ele é aquele “artista mais tarimbado buscando ajudar outro artista mais jovem”, como dizia de si mesmo. Ezra Pound, poeta, músico e ensaísta de invejável erudição, e um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX, nasceu em 30 de outubro de 1885, na cidade de Hailey, Idaho, EUA, e morreu em no dia 1 de novembro 1972, em Veneza, Itália.


Em A Arte da Poesias, no seu capítulo Linguagem, Pound ensina, como ele mesmo disse, aos jovens escritores, poetas principalmente, como se deve tratar a difícil arte da prosa e da poesia:


“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.


Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.


Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.


Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.


Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.


REFERÊNCIA:
POUND,Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.

Friday, June 19, 2009

A única existência que (o dinheiro) lhes destina é a regulamentada pelas oscilações da Bolsa e as determinações do mercado mundial.
(Raoul Vaneigem, "A Economia Parasitária")

TUDO DE BORLA


Esta tarde no "Piolho"
ofereceram-me dois copos de vinho
bem sei que os gajos estão a fazer negócio
mas que se foda!
Assim de borla é que a coisa vai
vivam os 100 anos do "Piolho"!
Deveriam ser 100 anos todos os dias
apanhar bebedeiras todos os dias
sem pagar um tostão
curtir todo o dia
sem trabalhar
escrever uns poemas
só para mostrar serviço
maravilha!
Era a melhor das vidas
o paraíso
o banquete permanente
o fim do dinheiro
o fim do trabalho
e, finalmente,
mandar tudo para o caralho!
Já não escrevo. As palavras vêm ter comigo. Perdi a namorada por causa de um poema que publiquei neste blogue. Já não controlo o que escrevo. Sou apenas o mediador, o intérprete. As namoradas não compreendem a minha arte, a minha loucura. A minha loucura é deixar-me ir, deixar-me levar, como um barco à deriva no meio do mar. Amo a minha loucura. Ofereco-lhe palácios, diamantes, todos os meus reinos. Nada se sobrepõe a ela. Amo-a desesperadamente, sem limites. Vou com ela até ao fim. Poucos, muito poucos me acompanham. Talvez por isso eu seja, por vezes, tão narcisista, tão centrado em mim próprio. Aqueles que admiro também o eram. Estou condenado à minha solidão, ao caminho que conduz a mim mesmo, como Zaratustra. Mesmo que esteja a banquetear-me com outros e com outras sei que tenho de seguir o meu caminho. Sigo apenas os meus mestres, aqueles que subiram ao palco antes de mim. O meu caminho nada tem a ver com a vidinha do cidadão comum, sei-o claramente agora. Estou a separar as àguas. O meu caminho é o caminho da loucura e da criação.

Wednesday, June 17, 2009

HENRY MILLER


Nós ainda não estamos preparados para nos misturarmos com os deuses, ainda não estamos dispostos a isso. Os homens dos tempos antigos conheciam os deuses, viam-nos cara a cara. O homem não estava distanciado, em percepção, quer das ordens mais elevadas, quer das mais inferiores da Criação. Hoje o homem está isolado. Hoje o homem vive como escravo. Pior: somos escravos uns dos outros. Criámos uma condição até agora desconhecida, uma condição absolutamente única: tornámo-nos os escravos dos escravos. Não duvidem, no momento em que verdadeiramente desejarmos a liberdade seremos livres. Nem um milésimo de segundo antes! Agora pensamos como máquinas porque, a bem dizer, nos transformámos em máquinas! Àvidos de poder, somos as vítimas indefesas do poder...No dia em que aprendermos a exprimir amor conheceremos o amor- e tudo o mais desaparecerá.(...)
O mal só existe como ameaça ao reino eterno de amor que apenas vislumbramos vagamente. Sim, homens têm tido visões de uma humanidade liberta. Têm tido visões de caminharem na terra como os deuses que outrora foram. (...)
Todos os caminhos, quer acreditem quer não, acabam por conduzir àquela fonte vivificante que é o centro e o significado da Criação. Como Lawrence disse, com o último alento de vida: "Para o homem, a imensa maravilha é estar vivo. Para o homem, como para a flor, o animal e a ave, o supremo triunfo é estar muito vivamente, muito perfeitamente vivo..." Tornemo-nos inteiramente vivos.
(Henry Miller, "Plexus")

O EFEITO-CERVEJA


Um café é a droga suficiente
para eu me pôr a escrever
mas não estou com o pedal de ontem
saí da cama às 4,30 da tarde
ainda estou a começar o dia
é esta a vantagem de não ter obrigações
a minha única "obrigação" é escrever
hoje até nem vou ao "Púcaros"
estou-me a guardar para amanhã
para o Clube Literário
esta coisa de ir todas as semanas
ao "Púcaros"
faz-me perder o efeito-surpresa
e depois, não sei, acho que me sinto melhor
a dizer sentado
vou dizer sentado os últimos poemas
que escrevi
e viva a preguiça!
Sem preguiça não há criação
e as gajas loiras aparecem
e eu começo a speedar
ontem em Famalicão foi uma merda
ainda bebi três cervejas, vá lá,
devem estar agora a fazer efeito
começo a suar
quero uma namorada!
já disse: quero uma namorada!
Tenho uma mas não está cá
nem tenho de fazer auto-censura
sou um criador
um gajo que do nada
faz surgir a palavra
um gajo que continua a escrever
coisas muito longas,
como diz a Alexandra,
que não apareceu no sábado
e me deixou entregue aos bichos
fui dizer os poemas dos outros
tenho de dizer os poemas dos outros
senão quando tal não sei dizê-los
só digo as minhas coisas
especializei-me nisso
sou um aedo,
como diziam os gregos
e continuo a escrever
escrever é como uma droga
- já o disse, acho eu
tenho de prestar atenção
às repetições
se bebesse agora uma cerveja
dava um efeito fixe
e é isso que vou fazer
vou beber uma cerveja
- Uma cerveja se faz favor!
Carlsberg, já agora!-
Sabe bem

Dionisos, Dionisos,
volta a mim
estou a combater a depressão
o inferno do artista
nada tenho a ver
com os cidadãos obedientes
estou noutra dimensão
estou a ser coroado rei
deixei de ler os jornais
e de ver televisão
o líquido que ingiro é sagrado
Dionisos, Dionisos
dá-me forças
faz desta merda um bacanal
encharca-me de cerveja e de vinho
faz com que as musas me amem, agora!
Leva-me de volta ao paraíso
já estive lá algumas vezes
mas não soube agarrar bem a coisa
desta vez tenho de ficar lá para sempre
ao lado do Morrison e do Curtis
não me venhas falar do trabalho!
Já disse: não fui feito para isso
vivo de subidas e descidas
de ascensões e de quedas
só queria ficar lá para sempre...


V.N.Telha, 17.6.2009

Tuesday, June 16, 2009

NIETZSCHE

O Solitário

Detesto seguir alguém assim como detesto conduzir.
Obedecer? Não! E governar, nunca!
Quem não se mete medo não consegue metê-lo a
ninguém,
E só aquele que o inspira pode comandar.
Já detesto guiar-me a mim próprio!
Gosto, como os animais das florestas e dos mares,
De me perder durante um grande pedaço,
Acocorar-me a sonhar num deserto encantador,
E forçar-me a regressar de longe aos meus penates,
Atrair-me a mim próprio... para mim.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

NIETZSCHE


A Piedosa Beppa

Enquanto o meu corpo for belo
É pecado ser piedosa,
É sabido que Deus gosta das mulheres,
E das bonitas sobretudo.
Ele perdoará, tenho a certeza,
Facilmente ao pobre fradezinho
Que tanto procura a minha companhia
Como muitos outros fradezinhos.

Não é um velhorro padre da Igreja, .
Não, é jovem, muitas vezes vermelho,
Muitas vezes, apesar da mais cinzenta tristeza,
Pleno de desejo e de ciúme.
Não gosto dos velhos.
Ele não gosta das velhas:
Que admiráveis e sábios
São os caminhos do Senhor!

A Igreja sabe viver,
Sonda os corações e os rostos,
Insiste em perdoar-me...
Quem não me perdoará, então?
Três palavras na ponta da língua,
Uma reverência e ide embora:
O pecado deste minuto
Apagará o antigo.

Bendito seja Deus na Terra,
Gosta das raparigas bonitas
E perdoa de bom grado
Os tormentos do amor.
Enquanto o meu corpo for belo
É pena ser piedosa;
Case o diabo comigo
Quando eu já não tiver dentes.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Sunday, June 14, 2009

VANEIGEM E O TRABALHO

A DECADÊNCIA DO TRABALHO

Raoul Vaneigem

1967

A obrigação de produzir aliena a paixão de criar. O trabalho produtivo é parte dos processos de manutenção da ordem. O tempo de trabalho diminui à medida que cresce o império do condicionamento.

Em uma sociedade industrial que confunde trabalho e produtividade, a necessidade de produzir sempre foi antagonista do desejo de criar. O que resta de centelha humana, de criatividade possível, em um ser privado do sono às seis horas a cada manhã, que se equilibra nos trens suburbanos, ensurdecido pelo ruído das máquinas, lixiviado, cozido a vapor pelas cadências, os gestos privados de sentido, o controle estatístico, e jogado ao fim do dia nos saguões das estações, catedrais de partida para o inferno das semanas e o ínfimo paraíso dos finais de semana, onde a multidão comunga a fadiga e o embrutecimento? Da adolescência à aposentadoria, nos ciclos de vinte e quatro horas ouve-se o uniforme estilhaçar de vidraças: rachadura da repetição mecânica, rachadura do tempo-é-dinheiro, rachadura da submissão aos chefes, rachadura do tédio, rachadura da fadiga. Da força viva esmigalhada brutalmente ao rasgo escancarado da velhice, a vida se racha por todos lados sob os golpes do trabalho forçado. Jamais uma civilização atingiu tal grau de desprezo pela vida; afogada no desgosto, jamais um geração experimentou tal raiva de viver. Aqueles que matamos lentamente nos matadouros mecanizados do trabalho são os mesmos que discutem, cantam, bebem, dançam, beijam, ocupam as ruas, pegam em armas, criam uma nova poesia. Já está se formando a frente contra o trabalho forçado; os gestos de recusa já modelam a consciência futura. Todo apelo à produtividade é, sob as condições desejadas pelo capitalismo e pela economia sovietizada, um apelo à escravidão.

A necessidade de produzir acha tão comodamente as suas justificativas que qualquer Fourastié pode encher dez livros com elas sem esforço. Infelizmente para os neo-pensadores do economismo, estas justificativas são aquelas do século XIX, de uma época onde a miséria das classes trabalhadores fazia do direito ao trabalho o homólogo do direito à escravidão, reivindicada na aurora dos tempos pelos prisioneiros condenados à morte. O mais importante era não desaparecer fisicamente, sobreviver. Os imperativos da produtividade são imperativos de sobrevivência; mas a partir de agora as pessoas querem viver, não somente sobreviver.

O tripalium era um instrumento de tortura. Labor significa "tormento". Há uma certa leviandade no esquecimento da origem das palavras "trabalho" e "labor". Os nobres tinham ao menos a memória de sua dignidade, assim como da indignidade que afligia os seus servos. O desprezo aristocrático pelo trabalho refletia o desprezo do senhor pelas classes dominadas; o trabalho era a expiação à qual foram condenadas por toda a eternidade por um decreto divino, que os queria, por razões impenetráveis, inferiores. O trabalho se inscrevia, entre as sanções da Providência, como a punição do pobre, e, uma vez que ela era também meio de salvação futura, uma tal punição podia se revestir de satisfação. No fundo, o trabalho importava menos do que a submissão.

A burguesia não domina, ela explora. Ela submete pouco, ela prefere usar. Como não se viu que o princípio do trabalho produtivo substituiu simplesmente ao princípio da autoridade feudal? Por que não se quis compreender isso?

Seria porque o trabalho melhora a condição dos homens e salva os pobres, pelo menos ilusoriamente, da danação eterna? Sem dúvida, mas hoje se torna evidente que a chantagem de dias melhoras sucede docilmente à chantagem de salvação no além. Em um ou outro caso, o presente está sempre sob o punho da opressão.

Seria porque ele transforma a natureza? Sim, mas o que farei de uma natureza ordenada em termos de lucros em uma ordem de coisas onde a inflação técnica encobre a deflação dos objetivos da vida? Além disso, da mesma forma que o ato sexual não tem por função procriar, mas eventualmente gera crianças, é como subproduto que o trabalho organizado transforma a superfície dos continentes, não como finalidade. Trabalhar para transformar o mundo? Vejam só! O mundo se transforma pelo molde do trabalho forçado; e é por isso que ele se transforma para pior.

O homem se realizará em seu trabalho forçado? No século XIX, subsistia na concepção de trabalho um traço ínfimo de criatividade. Zola descreve um concurso de fabricantes de prego onde os trabalhadores competiam em habilidade para realizar sua minúscula obra-prima. O amor pelo ofício e a pesquisa de uma criatividade já sufocada permitia sem dúvida suportar dez a quinze horas às quais ninguém poderia resistir se não houvesse alguma forma de prazer. Uma concepção ainda artesanal em seu princípio deixava a cada um a possibilidade de ter um conforto precário no inferno da fábrica. O taylorismo deu o golpe de misericórdia em uma mentalidade preciosamente entretida pelo capitalismo arcaico. É inútil esperar de um trabalho feito na cadeia de produção mais do que uma caricatura de criatividade. O amor ao trabalho bem feito e o gosto pela promoção no trabalho são hoje a marca indelével da fraqueza e da submissão mais estúpidas. É por isso que, onde quer que a submissão seja exigida, o velho peido ideológico toma seu rumo, do Arbeit macht frei [o trabalho liberta] dos campos de concentração aos discursos de Henry Ford e de Mao Tsé-Tung.

Qual é então a função do trabalho forçado? O mito do poder exercido conjuntamente pelo chefe e por Deus achava na unidade do sistema feudal a sua força de coerção. Ao destruir o mito unitário, o poder fragmentário da burguesia abre, sob o signo da crise, o reino de ideologias, que jamais atingirão, nem sozinhas nem juntas, um quarto da eficácia do mito. A ditadura do trabalho produtivo oportunamente entra em cena. Ela tem por missão enfraquecer biologicamente o maior número de homens, castrá-los coletivamente e embrutecê-los, a fim de torná-los receptivos às mais medíocres, menos viris, mais senis ideologias jamais vistas na história da mentira.

O proletariado do começo do século XIX consiste de uma maioria de pessoas diminuídas fisicamente, de homens sistematicamente alquebrados pela tortura da oficina. As revoltas vêm de pequenos artesãos, de categorias privilegiadas ou de sem-trabalho, não de trabalhadores violentados por quinze horas de labor. Não é perturbador constatar que a diminuição do número de horas de trabalho surge no momento em que o espetáculo de variedades ideológicas produzidos pela sociedade de consumo parece ser capaz de substituir eficazmente os mitos feudais destruídos pela jovem burguesia? (Há pessoas que realmente trabalharam para comprar um refrigerador, um carro, uma televisão. Muitos continuam a fazê-lo, "convidados" que são a consumir a passividade e o tempo vazio que lhes "oferece" a "necessidade" de produzir.)

Estatísticas publicadas em 1938 indicam que a aplicação das técnicas de produção contemporâneas reduziriam a duração do tempo de trabalho necessário para três horas por dia. Não somente estamos longe disto com nossas sete horas de trabalho, mas após ter usado gerações de trabalhadores prometendo-lhes o bem-estar que ela lhe vende a prazo, a burguesia (e sua versão sovietizada) prossegue a sua destruição do homem fora do trabalho. Amanhã ela exibirá como isca suas cinco horas de desgaste cotidiano exigidas por um tempo de criatividade que crescerá na proporção em que puder ser preenchido de uma impossibilidade de criar (a famosa organização do lazer).

Já foi dito corretamente: "A China enfrenta problemas econômicos gigantescos; para ela, a produtividade é uma questão de vida ou morte." Ninguém pensa em negá-lo. O que me parece grave não se refere aos imperativos econômicos, mas à maneira de respondê-lo. O Exército Vermelho de 1917 se constituía em um tipo novo de organização. O Exército Vermelho de 1960 é um exército como se encontra nos países capitalistas. As circunstâncias provaram que a sua eficácia ficava muito abaixo das possibilidades de milícias revolucionárias. Da mesma forma, a economia chinesa planificada, ao não permitir aos grupos federados a organização autônoma de seu trabalho, se condena a tornar-se uma forma de capitalismo aperfeiçoado, chamado socialismo. Alguém se deu ao cuidado de estudar as modalidades de trabalho dos povos primitivos, a importância do jogo e da criatividade, o incrível rendimento obtido por métodos que uma gota das técnicas modernas tornaria cem vezes mais eficazes ainda? Parece que não. Todo apelo à criatividade vem de cima. Ora, só a criatividade é espontaneamente rica. Não é da produtividade que devemos alcançar uma vida rica, não é da produtividade que devemos esperar uma resposta coletiva e entusiasta à demanda econômica. Mas o que dizer mais quando sabemos como o trabalho é cultuado em Cuba e na China, e com que facilidade as páginas virtuosas de Guizot passam de agora em diante em um discurso de 1o. de Maio?

À medida que a automação e a cibernética deixam prever a substituição em massa de trabalhadores por escravos mecânicos, o trabalho forçado revela pertencer aos processos bárbaros de manutenção da ordem. O poder fabrica assim a dose de fadiga necessária à assimilação passiva de seus decretos televisionados. Por qual recompensa trabalhar de agora em diante? A farsa se esgotou; não há mais nada a perder, nem mesmo uma ilusão. A organização do trabalho e a organização do lazer resguardam as tesouras castradoras encarregadas de melhorar a raça dos cães submissos. Veremos qualquer dia os grevistas, reivindicando a automação e a semana de dez horas, escolherem, como forma de greve, fazer amor nas fábricas, nos escritórios e nos centros culturais? Somente se inquietariam e se espantariam os planejadores, os gerentes, os dirigentes sindicais e os sociólogos. Com razão, talvez. Afinal, é a pele deles que está em jogo.

Traduzido por Daniel Cunha. Título original: "La déchéance du travail" ( http://arikel.free.fr/aides/vaneigem/traite-5.html )
Excerto do livro "A arte de viver para as novas gerações" (Traité de savoir-vivre à l'usage des jeunes générations), Raoul Vaneigem

RAOUL VANEIGEM


31 de Maio de 2009 por Carlos Vidal

Raoul Vaneigem

A Internacional Situacionista existiu entre 1957 e 1972.

Apesar de todas as ilusões, utopias realizadas, conflitos pessoais (o de Vaneigem versus Debord é o mais impactante), beleza oculta e secretamente vivida em todas as cidades em que a atomização do urbanismo contemporâneo ainda não tinha de todo triunfado (e o Maio de 68 como “possibilidade” foi disso a prova), apesar de tudo por aquilo que passou, a IS venceu, falhou, venceu, mas sempre pretendeu combater o seu sucesso. Estranho, não é verdade? Talvez, mas a “história secreta do século XX” (para retomar o termo de Marcus), guardará para a IS o centro dos acontecimentos ou mesmo do mundo, do mundo do vivido contra o mundo da representação (e já estamos a confluir para Debord, que não é exactamente o tema deste texto). Sublinho neste post a importância de uma retrospectiva da IS relatada em rara entrevista por Raoul Vaneigem (a Hans-Ulrich Obrist, o hiperactivo crítico, comissário de exposições e director da Whitechapell de Londres, no último e-flux journal #6 de Maio último).

O ano de 1967, como se sabe, foi fundamental para a IS: Guy Debord publica La Société du Spectacle e Vaneigem, Traité de Savoir-Vivre à l’Usage de Jeunes Générations. Na década de 70 já são dois inimigos sem conciliação. Morto Debord, é hoje Vaneigem o fiel depositário, digamos assim, deste património precioso e inédito, em que marxismo, revolução, dadaísmo e surrealismo se cruzam, como se de formas de respirar se tratassem (ou como de respiração natural se tratasse esse cruzamento hibridizado e sem hierarquias). Quando Guy Debord escreve La Société du Spectacle e nos diz, depois, que as pessoas que mais admirou foram Arthur Cravan, o artista-pugilista-aventureiro, e Lautréamont, percebemos que a poesia radical se une nele (neles) à política igualmente radical: Hegel, Marx, Stirner e Bakunine. E dessa mistura resultam quatro inimigos fundamentais: o Estado, o capitalismo, a economia e a militância partidária.

Como dirá Vaneigem, a economia é o inimigo central, pois ao nascer de uma passagem da colheita dos recursos naturais para a sua industrialização, a economia inaugura apenas a sua história contra a nossa. Para Vaneigem, a economia é sinónimo de pilhagem e destruição das relações humanas. Resta-lhe, resta-nos, o elogio da preguiça, que aliás faz nun raro livro sobre os pecados capitais para o Centro Pompidou (Paris, 1996): “O embrutecimento do trabalho quotidiano terminou reconhecido como ele é: uma alquimia de involução que transformou em chumbo o ouro da riqueza existencial”.

Daqui vamos para a primeira resposta de Vaneigem a Obrist (que lhe começa por perguntar o que gostaria de dizer a Obama): “Recuso cultivar todo e qualquer tipo de relação com gente do poder. Concordo com os Zapatistas de Chiapas, que nada pretendem nem do Estado nem dos seus figurões, as máfias multinacionais. Apelo à desobediência civil para que as comunidades possam formar, coordenar e encetar um poder natural autoproduzido, outras formas de exploração agrícola e concretizar serviços públicos libertos das escamas governativas quer da direita quer da esquerda. Por outro lado, apoio Chamoiseau e Glissant [escritores e teóricos de Martinica] na defesa de uma existência onde a poesia da vida ponha cobro aos bastiões da mercadoria”.

Vaneigem e Debord sempre quiseram tudo. E nós, já não queremos nada pois não?? (CONTINUA
à espera dos bárbaros / konstandinos kavafis
Porque esperamos, reunidos na praça?
Hoje devem chegar os bárbaros.

Porque reina a indolência no Senado?
Que fazem os senadores, sentados sem legislar?

É porque hoje vão chegar os bárbaros.
Que hão-de fazer os senadores?
Quando chegarem, os bárbaros farão as leis.

Porque se levantou o Imperador tão de madrugada
e que faz sentado à porta da cidade,
no seu trono, solene, levando a coroa?

É porque hoje vão chegar os bárbaros.
E o imperador prepara-se para receber o chefe.
Preparou até um pergaminho para lhe oferecer, onde pôs
muitos títulos e nomes honoríficos.

Porque é que os nossos cônsules, e também os pretores,
hoje saem com togas vermelhas bordadas?
Porquê essas pulseiras com tantos ametistas
e esses anéis com esmeraldas resplandecentes?
Porque empunham hoje bastões tão preciosos
tão trabalhados a prata e ouro?

Hoje vão chegar os bárbaros,
e estas coisas deslumbram os bárbaros.

Porque não vêm, como sempre, os ilustres oradores
a fazer-nos seus discursos, dizendo o que têm para nos dizer?

Hoje vão chegar os bárbaros;
e, a eles, aborrece-os os discursos e a retórica.

E que vem a ser esta repentina inquietação, esta desordem?
(Que caras tão sérias tem hoje o povo.)
Porque é que as ruas e as praças vão ficando vazias
e regressam todos, tão pensativos, a suas casas?

É porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E da fronteira chegou gente
dizendo que os bárbaros já não vêm.

E agora que será de nós sem bárbaros?
De certo modo, essa gente era uma solução.



Konstandinos Kavafis
Os Poemas
Relógio D` Água, 2005

Tradução, prefácio e notas de
Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis
por Albino M. no dia 13.6.09

retirado de http://mal-situados.blogspot.com

Saturday, June 13, 2009

BRETON E ÉLUARD

andré breton e paul éluard / tentativa de simulação da paralisia geral





Minha grande adorada bela como tudo na terra e nas mais belas estrelas da terra que eu adoro minha grande mulher adorada por todos os poderes das estrelas bela com a beleza dos biliões de rainhas que adornam a terra a adoração que tenho pela tua beleza põe-me de joelhos para te suplicar que penses cm mim ponho-me aos teus joelhos adoro a tua beleza pensa em mim tu minha beleza adorável minha grande beleza que adoro faço rolar os diamantes no musgo mais alto que as florestas de que os teus cabelos mais altos pensam em mim — não me esqueças minha mulherzinha nos meus joelhos na altura ao canto da. lareira sobre a areia em esmeralda — olho para ti na minha mão que me serve para me firmar em tudo no mundo para que tu me reconheças por aquilo que sou minha mulher morena-loura minha bela e minha tola pensa em mim nos paraísos com a cabeça nas minhas mãos.

Eu não estava cansado dos cento e cinquenta castelos onde nos íamos amar irão construir-me amanhã outros cem mil cacei das florestas de baobás de teus olhos os pavões as panteras e as aves-liras eu os encerrarei nos meus castelos fortes e iremos passear ambos nas florestas da Ásia da Europa da África da América que rodeiam os nossos castelos nas florestas admiráveis dos teus olhos que estão habituados ao meu esplendor.

Não tens de esperar pela surpresa que te quero fazer pelo teu aniversário que é hoje no mesmo dia que o meu — vou fazer-ta imediatamente pois esperei quinze vezes o ano mil antes de te fazer surpresa de te pedir para pensares em mim às escondidas — quero que penses em mim rindo minha jovem mulher eterna. Contei antes de adormecer nuvens e nuvens de carros cheios de beterrabas para o sol e quero levar-te à noite à praia de astracã que estão prestes a construir com dois horizontes para os teus olhos de petróleo para fazer a guerra eu te levarei por caminhos de diamantes pavimentados de primaveras de esmeraldas e o manto de arminho com que quero cobrir-te é urna ave de rapina os diamantes que teus pés pisarão mandei-os lapidar em forma de borboleta. Pensa em mim que não sonho senão com o teu clarão onde adormece o luxo alegre de uma terra e de todos os astros que conquistei para ti adoro-te e adoro os teus olhos e abri os teus olhos abertos a todos aqueles que viram e darei a todos os seres que os teus olhos viram vestidos de ouro e de cristal vestidos que deverão tirar quando os teus olhos os tiverem embaciado com o seu desprezo. Sangro no meu coração apenas com as iniciais do teu nome num estandarte com iniciais do teu nome que são todas as letras de que o z é a primeira no infinito dos alfabetos e das civilizações onde te amarei ainda pois queres ser minha mulher e pensar em mim nos países onde já não existe termo médio. O meu coração sangra na tua boca e volta a fechar-se na tua boca em todos os castanheiros-rosas da avenida da tua boca onde vamos na poeira deslumbrante deitarmo-nos entre os meteoros da tua beleza que eu adoro minha grande criatura tão bela que eu estou feliz por embelezar os meus tesouros com a tua presença teu pensamento e teu nome que multiplica as facetas do êxtase dos meus tesouros com o teu nome que eu adoro porque encontra um eco em todos os espelhos de beleza do meu esplendor minha mulher original meu andaime de pau-rosa tu és a minha culpa da minha culpa da minha muito grande culpa como Jesus Cristo é a mulher da minha cruz — doze vezes doze mil cento e quarenta e nove vezes te amei com paixão no caminho e estou crucificado ao norte a este a oeste e ao norte pelo teu beijo de rádio e quero-te e és no meu espelho de pérolas o hálito do homem que não te trará à superfície e que te ama na adoração minha mulher deitada de pé quando estás sentada a pentear-te.

Tu virás tu pensas em mim tu virás tu correrás nas tuas treze pernas cheias e em todas as tuas pernas vazias que batem o ar com o baloiçar dos teus braços urna multidão de braços que querem enlaçar-me a mim de joelhos entre as tuas pernas e os teus braços para te enlaçar sem receio de que as minhas locomotivas te impeçam de vir até mim e sigo-te e estou diante de ti para te deter para te dar todas as estrelas do céu num beijo nos olhos todos os beijos do mundo numa estrela sobre a boca.



Bem teu em archote.




P. S. — Queria um botim para a missa com uma corda de nós para marcar as páginas. Traz-me também um estandarte franco-alemão para eu colocar no terreno vago. E uma libra de chocolate Menier com a menina que cola anúncios (já não me lembro). E depois mais nove dessas meninas com os seus advogados e os seus juízes e tu vem no comboio especial com a velocidade da luz e os bandidos do Far-West que me distrairão um minuto que aqui salta infelizmente como as rolhas de champanhe. E um patim. O meu suspensório esquerdo acaba de se partir eu levantava o mundo como uma pena. Podes fazer-me um favor compra um tank quero ver-te chegar como as fadas.








andré breton e paul éluard
as possessões
a imaculada concepção
tradução franco de sousa
estúdios cor
1972

Friday, June 12, 2009

Ontem no "Púcaros" tive umas risadas e umas palmas. Acabou por ser melhor do que na semana passada. Há gente que me acha piada. A rádio passa "Circo de Feras" dos Xutos e eu penso no passado, quando ia aos concertos e ainda era um jovem promissor. Estou nas margens da sociedade, como disse um gajo ontem, embora não pareça. Desde o debate de ontem com o Rui Manuel Amaral, o Rui Costa, o Henrique Fialho e o José Mário Silva que pretendo escrever micro-ficção ou micro-narrativas ou seja lá o que é mas não consigo. Acho que já escrevi algumas coisas lá próximas. Vou enviá-las ao Costa.

HÁ UMA SEMANA


Há uma semana estava cheio de pedal. Há uma semana estava a escrever como o caralho (se é que o caralho escreve, coisa que não sei...). Há uma semana todo eu transpirava poesia, era eu próprio a poesia. Há uma semana as ideias fervilhavam. Há uma semana andava pelo quintal louco de alegria, convencido de que tinha descoberto a pólvora. Há uma semana nem sequer precisava de beber para escrever. Há uma semana eu tinha atingido o ponto. Há uma semana era capaz de tudo e de mais alguma coisa. Há uma semana era o Poeta que aparece nos jornais e que é mencionado nas críticas. Há uma semana eu era o rocker que vai aos bares passar a mensagem. Há uma semana estava cheio de pedal. Há uma semana eu era o gajo que está de bem consigo próprio. Há uma semana eu tinha a verve e a conversa capazes de te convencer. Há uma semana eu era o mestre da escrita e da palavra. Há uma semana eu era o gajo que recebia as palmas e que cantava. Há uma semana tinha achado o céu na Terra. Há uma semana já estava a caminho da loucura. Há uma semana era digno das minhas barbas. Há uma semana levava tudo de enfiada. Há uma semana eu fornicava a minha amada. Há uma semana escrevia versos de madrugada. Há uma semana eu era tudo e mais nada. Há uma semana.

BRAGA

Bebo e escrevo. Volto às velhas fórmulas. O "Piolho" está quase cheio e eu não sei escrever estórias. Talvez micro-estórias ou micro-ficções ou micro-narrativas. O que eu sei é que dependo da cerveja para escrever. Já me estou a repetir. Um gajo acaba sempre por se repetir. Gostava era de estar em Braga como há um mês. PArar na "Brasileira" e noutros tascos da cidade. Percorrer Braga sem obrigações nem imposições de nenhum tipo. Nestes últimos dias tenho-me encontrado com o sublime. Talvez a cerveja também me aproxime dele. Mas, de facto, hoje não estou a 100%. Há uma certa tristeza.

Monday, June 08, 2009

RIMBAUD



CARTAS DO VISIONÁRIO
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Para GEORGES IZAMBARD

Charleville, [13] de Maio de 1871

Caro Senhor:

Eis-vos de novo professor. Devemo-nos à sociedade, dissésteis-me vós; fazeis parte do corpo dos docentes: seguis por caminhos experimentados. -Também eu sigo o princípio: cinicamente, faço-me sustentar; desencaminho alguns imbecis antigos do colégio: tudo o que possa inventar de mais estúpido, porco e reles, por palavras ou acções, a eles o deixo: pagam-me com canecas e miúdas - Stat mater dolorosa, dum pendet filius, - Devo-me à sociedade, é justo, - e tenho razão. -Também vós tendes razão, por hoje. No fundo, vós nada vedes em vosso princípio senão poesia subjectiva: a vossa obstinação em retomar a manjedoura universitária - perdão- prova-o. Mas acabareis sempre como um satisfeito que nada fez, nada tendo querido fazer. Além de que a vossa poesia subjectiva será sempre horrivelmente fastidiosa. Um dia, espero, - muitos outros esperam a mesma coisa - verei no vosso princípio a poesia objectiva, vê-la-ei mais sinceramente que vós próprio a fareis! - Serei um trabalhador: é a ideia que me retém, quando a louca cólera me empurra para a batalha de Paris - onde tantos trabalhadores morrem agora mesmo que vos escrevo. Trabalhar agora, nunca, nunca; estou em greve.

Agora, mergulho na maior devassidão possível. Porquê? Quero ser poeta e trabalho para me tornar visionário: vós não compreendeis nada e eu não sei se saberei explicar-vos. Trata-se de atingir o desconhecido através do desregramento de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes mas é preciso ser-se forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. Não é de modo algum culpa minha. É falso dizer-se: eu penso. Deveria dizer- se: sou pensado. - Desculpe o trocadilho. -

Eu é um outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino e zomba dos inconscientes que discreteiam sobre aquilo que pura e simplesmente ignoram. Não sois Mestre para mim. Dou-vos isto: será uma sátira como vós diríeis? É poesia? Fantasia, é-o sempre. - Mas, suplico-vos, não a sublinheis com o lápis nem - demasiado - com o pensamento:


Coração Supliciado
(..................................)
Isto não quer dizer nada. - RESPONDA-ME: para casa do sr. Deverrière, para A. R.

Saúdo-o, de todo o coração,


Art. Rimbaud

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Para PAUL DEMENY em Douai

Charleville, 15 de Maio de 1871

Resolvi dar-vos uma hora de literatura nova; começo de imediato com um salmo de actualidade:


Canto de Guerra Parisiense
(................................................)
Eis agora alguma prosa sobre o futuro da poesia -

Toda a poesia antiga desemboca na poesia grega; Vida harmoniosa. Da Grécia ao movimento romântico, - Idade Média, - há alguns letrados, alguns versificadores. De Ennius a Theroldus, de Theroldus a Casimir Delavigne, tudo é prosa rimada, um jogo, relaxamento e glória de inúmeras gerações de idiotas: Racine é o puro, o forte, o grande. -Tivessem-lhe soprado sobre as rimas, baralhado os hemistáquios, e o Divino Idiota seria hoje tão desconhecido como o primeiro vindo, autor de Origens (1). -Após Racine, o jogo criou bolor. Durou dois mil anos!

Nem zombaria, nem paradoxo. A razão inspira-me mais certezas sobre esta matéria que fúrias teria tido um Jeune-France (2). De resto, os novos! têm por regra a liberdade de execrar os avoengos: estamos à vontade e temos tempo livre.

Nunca se julgou adequadamente o romantismo; quem o teria julgado? Os críticos!! Os românticos, que provam tão bem ser a canção raramente a obra, quer dizer o pensamento cantado e compreendido, do cantor?

Porque Eu é um outro. Se o cobre se descobre clarim, não há aí nada de culpa sua. Isso é evidente para mim: assisto à eclosão do meu pensamento: vejo-a, escuto-a: lanço um movimento com o arco: a sinfonia vai abalando as profundezas, ou salta de repente para o palco.

Se os velhos imbecis não tivessem encontrado do Eu apenas a significação falsa, não tínhamos que varrer esses milhões de esqueletos que, desde há um tempo infinito!, acumularam os produtos da sua inteligência vesga, proclamando-se autores!

Na Crécia, já o disse, versos e liras ritmam a Acção. Depois, música e rimas são jogos, refrigério. O estudo deste passado encanta os curiosos: muitos aprazem-se a renovar estas antiguidades: - é para eles. A inteligência universal sempre arremessou as suas ideias com naturalidade; os homens recolhiam uma parte desses frutos do cérebro: agia-se em conformidade, escreviam-se livros: tal era o sentido das coisas, o homem não se trabalhando, não estando ainda desperto ou não ainda mergulhado na plenitude do grande sonho. Funcionários, escreventes: autor, criador, poeta, esse homem nunca existiu!

O primeiro estudo para o homem que quer ser poeta é o seu próprio conhecimento, por inteiro; ele procura a sua alma, inspecciona-a, experimenta-a, apreende-a. Desde que a sabe, deve cultivá-Ia; isso parece simples: em todo o cérebro se dá um desenvolvimento natural; tantos egoístas se proclamam autores; muitos outros atribuem-se o seu próprio progresso intelectual! - Mas do que se trata é de tornar a alma monstruosa: a exemplo dos comprachicos (3), pois! Imagine um homem implantando e cultivando verrugas no seu próprio rosto.

Digo que é necessário ser visionário, fazer-se visionário.

O Poeta faz-se visionário por um prolongado, imenso e calculado desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele próprio procura, esgota em si todos os venenos para deles guardar apenas as quintessências. Inefável tortura em que ele precisa de toda a fé, de toda a sobre-humana força, em que ele se torna entre todos o grande enfermo, o grande criminoso, o grande maldito, - e o supremo Sábio! - Pois ele atinge o desconhecido! Uma vez que cultivou a sua alma, já de si rica como nenhuma! Ele atinge o desconhecido e, acaso, enlouquecido, acabasse por perder a inteligência das suas visões, tê-las-à visto! Que ele estoire no seu sobrevôo pelas coisas inauditas e inomináveis: virão outros horríveis trabalhadores; começarão pelos horizontes onde o outro se abateu!

- A sequência dentro de seis minutos -

Aqui intercalo um segundo salmo fora do texto: queira dispensar um ouvido complacente, - e toda a gente ficará encantada. - Tenho o arco na mão, começo:


As Minhas Pequenas Apaixonadas
(..........................................................)
Pronto. E repare bem que se eu não receasse fazer-vos desembolsar mais de 60 c. de portes, - eu, pobre assombrado, que desde há sete meses não embolso uma única moeda de bronze! - enviar-vos-ia ainda os meus Amantes de Paris, cem hexâmetros, caro senhor, e a minha Morte de Paris, duzentos hexâmetros! -

Retomando:

É pois o poeta, verdadeiramente, ladrão de fogo.

Ele tem a seu cargo a humanidade, os animais mesmo; deve fazer sentir, palpar, escutar as suas invenções; se aquilo que ele transmite de lá tem forma, ele dá a forma; se é informe, ele dá o informe. Achar uma língua;

- De resto, sendo toda a palavra uma ideia, o tempo de uma linguagem universal virá! É preciso ser-se académico - mais morto que um fóssil, - para compilar um dicionário, seja de que Iíngua for. Um ser fraco que se meta a pensar sobre a primeira letra do alfabeto, e poderá rapidamente precipitar-se na loucura! -

Esta língua será de alma para alma, compreendendo tudo, perfumes, sons, cores, o pensamento enganchado no pensamento, desfiando-o. O poeta definiria a quantidade de desconhecido despertando em seu tempo na alma universal: ele daria mais - que a fórmula do seu pensamento, que a marcação da sua marcha para o Progresso. Enormidade tornando-se norma, absorvida por todos, ele será verdadeiramente um multíplícador de progresso!

Este futuro será materialista, bem o vedes. - Sempre repletos do Número e da Harmonia, estes poemas serão feitos para permanecer. - No fundo, será ainda um pouco a Poesia grega.

A arte eterna teria as suas funções; assim como os poetas são cidadãos. A Poesia não ritmará mais a acção; ela estará na dianteira.

Estes poetas serão! Quando for quebrada a infinda servidão da mulher, quando ela viver por ela e para ela, o homem, - até aqui abominável, - tendo-lhe rendido a vez, ela será poeta, também ela! A mulher penetrará no desconhecido! Os seus mundos de ideias diferirão dos nossos? - Ela achará coisas estranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas; nós tomá-las-emos, nós compreendê-Ias-emos.

Entretanto, exijamos aos poetas o que for de novo, - ideias e formas. Todos os habilidosos pensariam rapidamente ter já satisfeito esta exigência. - Não é isso!

Os primeiros românticos foram visionários sem disso se darem bem conta; o cultivo de suas almas começou nos acidentes: locomotivas abandonadas, mas a queimar, que a espaços retomam ainda os carris. - Lamartine é por vezes visionário, mas a forma velha estrangula-o. - Hugo, por demais cabeçudo, soube bem ver nos seus últimos volumes; Os Miseráveis são um verdadeiro poema. Folheio Os Castigos; Stella oferece mais ou menos o alcance da vista de Hugo. Demasiado Belmontet e Lamennais, demasiados Jéhovahs e colunas, velhas enormidades perimidas.

Musset é catorze vezes execrável para nós, gerações dolorosas e tomadas de visões, - que a sua preguiça de anjo insultou! Oh! os contos e os provérbios fastidiosos! oh as noites! oh Rolla (4), oh Namouna, oh a Coupe! tudo é francês, quer dizer detestável no supremo grau; francês, não parisiense! Ainda uma obra desse odioso génio que havia já inspirado Rabelais, Voltaire, Jean La Fontaine, comentado pelo Sr. Taine! Primaveril, o espírito de Musset! Encantador, o seu amor! Eis aí pintura sobre esmalte, poesia sólida! Saborear-se-á durante muito tempo a poesia francesa, mas em França. Qualquer rapaz talhista está à altura de desbobinar uma apóstrofe Rollastra, qualquer seminarista transporta as suas quinhentas rimas no segredo de um canhenho. Aos quinze anos, estes impulsos de paixão põem os jovens a uivar à lua; aos dezasseis anos, eles contentam-se já em recitá-los com coração; aos dezoito anos, aos dezassete anos mesmo, todo o colegial dispondo dos meios, faz o Rolla, escreve um Rolla! Talvez alguns ainda morram disso. Musset não soube fazer nada: tinha lá algumas visões por detrás da gaze dos cortinados: fechou-lhes os olhos. Francês, Pavoneador, arrastado do botequim para as estantes das escolas, o belo morto está morto e, agora, não nos demos sequer ao trabalho de o despertar com as nossas abominações!

Os segundos românticos são bem visionários: Th. Gautier, Leconte de Lisle, Th. de Banville. Mas sendo a prospecção do invisível e a escuta do inaudito coisas diversas de retomar o espírito das coisas mortas, Baudelaire é o primeiro visionário, rei dos poetas, um verdadeiro Deus. Ainda viveu porém num meio demasiado artista; e a forma, que lhe é tão louvada, é mesquinha: as invenções de desconhecido reclamam formas novas.

Afeitos às velhas formas, entre os inocentes, A. Renaud, - criou o seu Rolla; - L. Grandet, - criou o seu Rolla; - os gauleses e os Musset, G. Lafenestre, Coran, CI. Popelin, Soulary, L. Salles; Os académicos, Marc, Aicard, Theuriet; os mortos e os imbecis, Autran, Barbier, L. Pichat, Lemoyne, os Deschamp, os Desessarts; os jornalistas, L. Cladel, Robert Luzarches, X. de Ricard; os fantasistas, C. Mendès; os boémios; as mulheres; os talentos, Leon Dierx e Sully Prudhomme, Coppée; - a nova escola, dita parnasiana, tem dois visionários, Albert Mérat e Paul Verlaine, um verdadeiro poeta. - Eis, pois (5). - Trabalho assim para me tornar visionário. - E terminemos por um canto piedoso.


Prostrações
(................................................)
Seríeis execrável se não me respondêsseis: rapidamente, pois dentro de oito dias estarei talvez em Paris.

Até à vista.
Hoje não vou ao "Pinguim"
vou para a semana
não tenho de me andar sempre
a exibir
se bem que a glória
me faça falta
a derrota do sócrates
deixou-me contente
se bem que não esteja eufórico
como os gajos do Bloco
já disse: votei no MRPP
ainda tivemos 1,2%
uma boa percentagem
assim o partido não corre riscos
de se aburguesar.

Saturday, June 06, 2009

ROTINA NA MOTINA


Chego triunfal à "Motina"
o bêbado adormece diante do copo
o fadista passeia de boné na cabeça
dá umas voltas
cumprimenta o psicólogo
as mulheres falam dão à língua
são máquinas de falar
nunca mais páram
a rádio passa Bruce Springsteen
"Glory Days"
ouvia isso aos 16 anos
quando era um jovem promissor
bom aluno boas notas
depois percebi que tudo
se resumia a notas e moedas
e cartões multibanco e contas bancárias
depois percebi que quase nada fazia sentido
antes andar bêbado
e adormecer diante do copo
é claro que há sempre as empregadas
a chamar-nos a atenção
mas não deixamos de estar na nossa
quase imunes ao capitalismo
desde que tenhamos uns trocos
para os copos
às vezes há umas gajas que falam connosco
que vêm ter connosco no fim da representação
que pensam que nós somos mais que os outros
só porque dizemos umas coisas
que os outros não dizem
e essas gajas fazem-nos acreditar
que existe qualquer coisa
como quando as crianças olham para nós
e há qualquer coisa de mágico na coisa
isto não é apenas um gajo a escrever
isto não são apenas os croissants a chegar
isto não é apenas o trabalhinho
isto não é sequer o dinheirinho
isto não são apenas as velhas a marchar
para fora da confeitaria
isto não é apenas o pequeno-burguês a mastigar
isto não é apenas a bandeira nacional
espetada na parede
há qualquer coisa!
Não sei se é Deus ou se são os deuses
não sei se é a energia como diz o Henrique
talvez seja o Espírito
o deus em nós de que fala Henry Miller

E pronto! Vem um gajo para a confeitaria
estudar alemão
e saem-nos deuses e espíritos
vem um gajo cantar a rotina
e o bêbado que adormece
diante do copo
e sai-nos a alma
a essência
a explicação de tudo isto

E pronto! Chega uma gaja boa
e lá se vai a essência
ou será sinal que ela vem de vez?


Vilar do Pinheiro, "Motina", 14.12.2008

GUITARRISTA


Guitarrista,
toca a tua ode para mim
dá-me a tua mão no deserto
traz-me mulheres bonitas
fá-las dançar
celebrar os deuses antigos
embriagar-nos de prazer e loucura

Guitarrista,
afasta de mim
o espectro repressivo da razão
dá-me o non-sense, delírios, alucinações
enche a terra de festins loucos
gargalhadas, unicórnios, duendes
veste os mendigos de trajes de gala
enche as taças
faz da vida um banquete permanente.

PREENCHENDO O CADERNO


As páginas descolam-se d' "Os Prazeres e os Dias"
de Marcel Proust
tenho de entregar o livro inteiro na Biblioteca
por isso não vou ler mais
Proust descreve magistralmente o mar
e tem páginas muito belas
mas não é bem o meu estilo
e lá continuo eu com a poesia prosaica,
como já disseram,
e o Neca do Boné entra na confeitaria
apetecia-me um bolo
mas vou pedir outro café
a selecção joga
e o Neca não está a ver,
estranho!
Afinal, sempre comi o bolo
e que importância tem isso
para o futuro da humanidade?
Que importãncia tem isso
para a revolução?
Está tudo ligado- já o disseram
o facto de eu comer um bolo na "Motina"
pode provocar uma revolução em França
nunca tinha pensado nisso
ainda é cedo
e eu aqui preso à caneta
não fui ao Porto
deveria ter ido
sinto algum tédio
não o nego
mas não estou deprimido
estou em forma
-como dizia o meu pai-
e vou preenchendo o caderno.

Friday, June 05, 2009

SENSO COMUM


Ainda há três dias encontrava-me
num estado de quase euforia
hoje estou algo parado
vim ao café beber cerveja
a ver se sai alguma coisa
a empregada ainda se aproveita
o resto é conversa fiada
é verdade que escrevo
é essa a minha missão
não me adapto ao mundo da vidinha
e dos trocos
trocos ainda vou tendo, é certo
mas apenas isso
hoje não sai nada de brilhante
estou apenas a cumprir os mínimos
o Rocha está longe
abandonou a mesa quando chegou o Fred
mas, de facto, estou longe
das conversas do senso comum.
o povo só liga à vidinha
á família e pouco mais
o artista tem de estar
muito para além disso.

Thursday, June 04, 2009

OUTRA VEZ A GLÓRIA


Ontem, no "Púcaros", tive alguma receptividade
mas a coisa ficou aquém das minhas expectativas iniciais
há textos que resultam mais lidos em casa ou na net
do que ditos em público
não que sejam piores
querias sair em glória, não querias?
É mesmo a glória que tu queres
mas a glória prega-te partidas
querias grandes ovações
abraços, beijos na boca
o pessoal a falar de ti a semana inteira
era isso que querias, não era?
É isso a glória
nem sequer precisas de muito trabalho
ou de muito dinheiro para atingi-la
ela até te pode cair do céu
sou narcisista, egocêntrico
não o nego
tenho de ser um bocado narcisista
senão caio na merda.

O HOMEM DA LIBERDADE


Estou contente com o que tenho escrito
não é que tenha descoberto a pólvora
mas estou a passar por uma fase realmente produtiva
e isso é o que realmente interessa
podia até acabar por aqui
mas vou prosseguir
aqui realmente a escolha é livre
a escolha é livre na "Motina"
às 5,30 da tarde
ninguém me tira isso
mesmo que alguém me roubasse o papel e a caneta
isto ficaria escrito
e é assim que me sinto:
absolutamente livre
posso seguir o meu caminho
neste momento não preciso de trabalho
nem de dinheiro
estou bem assim
sou o indivíduo soberano
que vai onde quer
estou bem assim
não invejo ninguém
o mundo sorri para mim
na "Motina" às 5,35 da tarde
sou o homem da liberdade
estou como o Jim
finalmente como o Jim!
E ainda não morri
estou vivo aos 41 anos
há muito que passei os 27
sou um artista
vivo da criação
já passei horas difíceis
já vivi muitas mortes
mas estou aqui vivo
sou o homem da liberdade.

POUS


Europeias
POUS diz que mensagem eleitoral contra despedimentos "passa" porque é central
04.06.2009 - 16h57 Lusa
A cabeça-de-lista do Partido Operário de Unidade Socialista (POUS) às europeias, Carmelinda Pereira, defendeu hoje, em Lisboa, que a mensagem do partido contra os despedimentos tem passado por este ser um tema central para todos.

A candidata ao Parlamento Europeu falou durante uma acção de campanha junto às instalações da Portugal Telecom, nas Picoas. Na ocasião, Carmelinda Pereira referiu que notou, "pela primeira vez" na campanha, uma "certa resistência" das pessoas ao contacto directo com os membros do POUS presentes na acção.

"Há pessoas que ficam inibidas quando nós lhes dizemos se querem tomar uma posição pela proibição dos despedimentos. Há aqui medo, foi-nos dito por trabalhadores que conhecemos, que estiveram aqui connosco, que existe receio dentro da empresa, porque há uma avaliação constante. Até a atitude de aceitar e assinar um papel pode ser motivo para pontuar e nesse sentido há um medo muito grande dentro da empresa", referiu.

No que toca ao mais vincado tema da campanha do POUS, os despedimentos, a cabeça-de-lista do partido afirmou ainda preocupação pela perspectiva da Comissão Europeia na questão do emprego, com a previsão de um número cada vez maior de desempregados. "O que é que vai acontecer aos povos da Europa? O que é que vai acontecer a Portugal? Isto é uma situação terrível. É preciso travar o processo", afirmou.

A "batalha" dos operários socialistas, que teve "grande visibilidade" na campanha do POUS às europeias, pretende soluções contra a crise laboral e económica baseadas na "organização" e não em "explosões sociais", rematou a candidata.

Wednesday, June 03, 2009

CLAUDIO WILLER

Surrealismo e marxismo? (Seguido de comentários sobre Surrealismo no Brasil)

Claudio Willer

.

A quantidade de títulos brasileiros sobre surrealismo pode ser contada nos dedos. Este é um dos motivos para registrar A estrela da manhã - Surrealismo e marxismo, de Michael Löwy (Editora Civilização Brasileira). Seu autor conhece o assunto, por tê-lo pesquisado e pela participação, há décadas, em atividades surrealistas. Daí a argumentação fluente, fundamentada em uma sólida bibliografia.

Pode, contudo, por causa do subtítulo, criar uma expectativa e subseqüente frustração, pois sugere a discussão da relação entre o corpus do que é entendido por marxismo, ou abrangido por esse significante (bastante coisa, é claro), e tudo aquilo designado por outro termo saturado de sentido, surrealismo.

Mas A estrela da manhã - Surrealismo e marxismo é, antes, uma coletânea de ensaios. Tem um fio condutor, o exame da natureza revolucionária do surrealismo. A estrela da manhã, do título, é sua metáfora, remetendo ao final de Arcano 17 de Breton: é a estrela especialmente luminosa emanada, segundo Éliphas Lévi, do anjo rebelde, Lúcifer, e que representa ao mesmo tempo amor e liberdade. O belíssimo final dessa obra complexa de Breton, Arcano 17 (editado pela Brasiliense), equivale às etapas finais de um processo iniciático: Breton evoca o sentido da Estrela da Manhã, Vênus, a supremacia do feminino, ao descobrir o estudo de Viatte mostrando o diálogo entre Éliphas Lévi e Victor Hugo, e como partilharam a crença nesse mito liberador.

Um dos ensaios de Löwy é sobre Walter Benjamin. Comentado o modo como surrealismo impressionou o autor de O drama barroco alemão, resultando em influência e intertexto, especialmente de O Camponês de Paris de Aragon, evidentes em Rua de Mão Única e outros de seus escritos. Examina sua apreciação lúcida e pioneira do surrealismo em 1929. Benjamin partilhou com Breton e Aragon a idéia de iluminações profanas, a admiração pelo romantismo radicalizado de Baudelaire, Rimbaud e Lautréamont, a percepção do maravilhoso que emerge no mundo moderno; e mais, o que Löwy chama de marxismo gótico, a sensibilidade para a dimensão mágica das culturas do passado. Os conceitos weberianos de desencantamento e re-encantamento do mundo são bem invocados, na introdução do livro e neste ensaio, a propósito da conexão Benjamin-surrealismo.

Outro capítulo, sobre Pierre Naville, pensador político importante, um dos editores de La Révolution Surréaliste, é oportuno. Realmente, divergências filosóficas à parte, o tratamento dado por Breton a Naville em 1930, difamando-o no Segundo Manifesto do Surrealismo, não foi algo que se faça. Recuperando Naville, revela bastidores da relação surrealismo-trotskismo nos anos 30. Ao que parece, não fossem as diferenças entre ambos, Breton e Naville, a aproximação de Breton e Trotski poderia ter-se dado antes.

Em seguida, um texto sobre O romantismo noir de Guy Debord e situacionismo. Chega em boa hora, por coincidir com a publicação, no Brasil, de manifestos da Internacional Situacionista e outras obras de Debord pela Conrad Livros. Traça um perfil de Debord, ao expor as linhas gerais de seu pensamento. Mas, dentro dos propósitos de A estrela da manhã, o exame das diferenças e afinidades entre surrealismo e o autor de La Societé du spectacle não poderia ficar restrito a um breve parágrafo, em acréscimo ao que é dito nas páginas iniciais do livro, supondo afinidades eletivas a aproximarem a atitude surrealista e a deriva situacionista.

Finalizam a série dois textos interligados, que poderiam compor um só artigo: um elogio a Vincent Bounoure, e um balanço da situação de grupos e movimentos surrealistas depois da morte, em 1966, de Breton.

Vincent Bounoure, morto em 1996, participou ativamente do surrealismo desde 1955, publicando em periódicos como Surréalisme même e La brèche. Em 1969, insurgiu-se contra a dissolução do surrealismo por Jean Schuster (legatário de Breton), José Pierre e Gérard Legrand (co-autor, com Breton, de L’Art magique), entre outros integrantes de peso desse movimento. Mas teve apoio de outros surrealistas de expressão, como Jean-Louis Bédouin, a excelente poeta Joyce Mansour e Robert Lebel. Daí em diante, Bounoure editou periódicos e a coletânea La Civilisation surréaliste. Estimulou manifestações e atividades no mundo todo. Criticou sua apropriação acadêmica, universitária. Segundo Löwy, …Se a aventura surrealista ainda continua em nossos dias, e se ela prossegue no século XXI, como esperamos, isso se deve e há de se dever, em absoluto primeiro lugar, ao espírito de insubmissão de um homem: Vincent Bounure. Entre outras informações sobre a movimentação surrealista pós-bretoniana, Löwy registra sua aproximação à Quarta Internacional, trotskista, em 1976; por conseguinte, aos marxistas revolucionários.

A seguir, relata o prosseguimento dessa aventura surrealista, a traduzir-se em publicações, manifestações e atividades no mundo todo, freqüentemente ignoradas pela mídia e especialistas da área universitária, levando-o a afirmar: …pior para os críticos, especialistas e outros dignos membros perpétuos da Academia das Inscrições e Belas-Letras. O surrealismo está alhures. (parafraseando Breton, que por sua vez adaptou Rimbaud, no final do primeiro Manifesto, ao dizer que a verdadeira vida está alhures, em outro lugar).

Essas observações têm um alvo: aqueles do grupo liderado por Breton que se moveram na direção da Sorbonne e outras universidades, e de núcleos acadêmcios de pesquisa, como o C. N. R. S. e o Centre de Recherches Surréalistes, dirigido por Henri Béhar, biógrafo de Breton, autor de obras sobre surrealismo e de estudos importantes sobre Alfred Jarry.

Mas Löwy, neste capítulo sobre O surrealismo depois de 1969, teria que mostrar melhor o que há nesse alhures, para que os leitores saibam o que, nele, ultrapassa o epigonal. Apenas elencar publicações, grupos e atividades equivale a um relatório protocolar. Não adianta dizer-se surrealista e declarar o ímpeto revolucionário, sem mostrar algo no plano da criação, da produção intelectual. É um paradoxo: mas, com todo o seu discurso crítico com relação a artes e literatura, o que mantém o interesse por surrealismo é sua ligação ao melhor do que se produziu nesses campos no século XX, incluída, frise-se, a obra de Breton. Por isso, por ser um pensador e um escritor denso e complexo, é estudado, inclusive na área acadêmica. Além disso, um pouco de teoria literária nunca fez mal a ninguém. Estudos universitários sobre surrealismo não precisam ser vistos como antagônicos com relação a seu prosseguimento como movimento. E trabalhos como aqueles dos estudiosos ligados a Béhar, bem como os scholars norte-americanos por sua vez ligados a Anna Balakian, trazem contribuição real para o conhecimento de obras surrealistas. Não há motivo para ninguém - nem os da ala acadêmica, nem os militantes - quererem monopólio do surrealismo, nesta altura.

Conforme observado acima, na introdução e nos capítulos iniciais de A estrela da manhã - Surrealismo e marxismo, Löwy dava a impressão de que a discussão da relação entre marxismo e surrealismo, da compatibilidade entre ambos, seria enfrentada no corpo do livro. Há até mesmo um parágrafo sobre Philosophie du surréalisme de Ferdinand Alquié (de 1955), um dos autores que achavam que não, que essa compatibilidade não existia. Já em 1933, Alquié havia denunciado o vento de cretinização sistemática que sopra da URSS, em uma carta que foi publicada em SASDLR, a revista de então dos surrealistas, antecipando a ruptura definitiva de Breton com o estalinismo em 1935. A tese de Alquié em Philosophie du surréalisme, polêmica, jamais foi impugnada por Breton - tanto é que continuou a participar das publicações surrealistas e a constar como fonte bibliográfica. Simplificando uma argumentação técnica em uma obra complexa, para Alquié, por trás de cada referência a Marx por Breton, estava Hegel; e, por trás de cada referência a Hegel, estava Kant.

Na argumentação de Löwy há um silogismo, implícito em seu modo de tratar a questão, diz ele, sempre apaixonante da revolução: o surrealismo é revolucionário, pois a utopia revolucionária é a energia musical deste movimento; o marxismo é revolucionário; portanto, são do mesmo âmbito, concordes, afins. Pode-se chegar ao contrário, utilizando as categorias revolução e revolta do modo como o faz Octavio Paz, em Signos em Rotação, vendo-as como antitéticas. Nesse caso, surrealismo pertence ao âmbito da revolta; marxismo, ao da revolução.

Breton, note-se, distinguia rebelião romântica e pensamento marxista, até mesmo ao querer transformá-los em um só, como na célebre proclamação de 1935: “Transformar o mundo”, disse Marx; “mudar a vida”, disse Rimbaud: estas duas palavras de ordem, para nós, são uma só.

Em especial, é discutível esta afirmação de Löwy: Como Breton sempre afirmou, desde o Segundo Manifesto do surrealismo até seus últimos escritos, a dialética hegeliana-marxista está no coração da filosofia do surrealismo. Não, não foi isso o que Breton afirmou sempre. Desde o Segundo Manifesto do surrealismo até seus últimos escritos, o pensamento de Breton mudou, e muito. Na disjuntiva Marx-Rimbaud, parece ter ficado com Rimbaud. Afastou-se do marxismo. A fundamentação enfática em Marx e Engels de obras de 1930, como o Segundo Manifesto do Surrealismo e Les Vases Communicants, já não está em O Amor Louco, de 1937. E mesmo então, suas afirmações sobre Nicolas Flamel e alquimia, no Segundo Manifesto do Surrealismo, e a defesa de unidade do sonho e realidade, e da astrologia como ciência, em Les Vases Communicants, provocavam arrepios nos marxistas ortodoxos.

Conforme Löwy resume, de modo apropriado, a relação entre surrealismo e PC explodiria de vez em 1935, com as denúncias do estalinismo em um congresso de escritores, mostrando a equivalência do regime soviético com aquilo que a sociedade burguesa tinha de mais retrógrado. Concomitantemente, o apoio a Trotsky, a traduzir-se no manifesto Por uma arte revolucionária independente, de 1937. Mas, em 1942, nos Prolegômenos a um terceiro manifesto do surrealismo ou não, Breton expressaria restrições ao racionalismo de Trotsky, para culminar na idéia dos Grandes Transparentes, do homem não mais como centro do universo, mas parte de um todo. Substitui Marx e Engels por Gérard de Nerval, seu interlocutor imaginário em Arcano 17, seu livro de 1944 (com acréscimos em 1947).

Em Prolegômenos a um terceiro manifesto do surrealismo ou não, …sem dar atenção às acusações de misticismo de que não serei perdoado, propõe-se a …convencer o homem de que ele não é obrigatoriamente o rei da criação, como se vangloria. Pergunta sobre a oportunidade de revelar um novo mito, o dos Grandes Transparentes. Observa que o homem não é talvez o centro, o ponto de mira do Universo, e critica o antropomorfismo, a crença de que o mundo encontra no homem o seu acabamento (sigo a mais recente edição brasileira dos Manifestos do Surrealismo, tradução de Sérgio Pachá, Ed. Nau, Rio de Janeiro, 2001). Dando a palavra final em matéria de manifestos, Breton diz, no último parágrafo de Do Surrealismo em suas Obras Vivas, de 1953, que …a esse respeito, sua posição (do Surrealismo) se uniria à de Gérard de Nerval no famoso soneto Versos Dourados. Nele, o autor de Aurélia, expressando as idéias de Fabre d’Olivet, duvida de que sejamos o centro do universo e os detentores exclusivos da razão: Homem! livre pensador! serás o único que pensa/ Neste mundo onde a vida cintila em cada ente?

Sem que por isso o surrealismo perdesse em combatividade, ou se afastasse da discussão dos temas propriamente sociais e políticos, o mesmo movimento está presente em sua poesia da década de 1940. Um de seus poemas de maior fôlego é a Ode a Charles Fourier, sobre o precursor do “socialismo utópico” e de uma visão da sociedade regida pelo pensamento analógico, pelas correspondências. Em outro poema da série, Les états géneraux, invoca Fabre d’Olivet e sua idéia de uma linguagem universal, e Saint-Yves d’Alveydre e seus estados gerais, reflexo mundano da ordem cósmica.

Tudo isso é observado por Löwy. São citados, em A estrela da manhã - Surrealismo e marxismo, os momentos desse percurso: a entrada no PCF, em 1927, a ruptura de 1935, o encontro com Trotski e a fundação da Fiari em 1938. Dá como etapas seguintes a redescoberta de Charles Fourier, a proclamação de novas utopias, e a aproximação com anarquistas em 1949-1953.

Mas, cabe perguntar: é o mesmo percurso? Onde Löwy vê continuidade, não haveria, antes, inflexão, mudança na base do ímpeto revolucionário, no pensamento que o sustenta? Adotar Charles Fourier equivale a adotar Marx? Ou são antitéticos? Enfim, haveria chance de compatibilidade entre “socialismo utópico” e “socialismo científico”? Marx achava que não. Trotski, menos ainda, a julgar pelo tratamento dado a insurreições anarquistas quando comandava o Exército Vermelho.

Cabem mais dúvidas, à luz da releitura de Arcano 17, dos dois últimos manifestos, e de Les états géneraux. Ver marxismo nessas obras não equivaleria a demonstrar que o taoísmo é um marxismo, que Lao-Tsé é um precursor de Marx, ou que, escavando através de camadas de racionalismo de Marx, Engels, Lênin e Trotski, pode-se encontrar a imagem do mundo regida pelas analogias e correspondências de Swedenborg, dos “iluminados” do século XVIII e de Éliphas Lévi?

Em Prolegômenos a um terceiro manifesto do surrealismo ou não, de 1942, além de avisar que não é homem de sistema, Breton diz com quem se alinha, contrapondo-se ao alinhamento dos partidos políticos: Mas, se a minha própria linha, bastante sinuosa, admito, mas quando menos minha, passa por Heráclito, Abelardo, Eckhardt, Retz, Rousseau, Swift, Sade, Lewis, Arnim, Lautréamont, Engels, Jarry e alguns outros? E no ensaio-manifesto Flagrant délit, de 1949, identifica-se a uma tradição ao mesmo tempo poética e esotérica: Sabe-se, com efeito, que os gnósticos estão na origem da tradição esotérica que consta como tendo sido transmitida até nós, não sem se reduzir e degradar parcialmente ao correr dos séculos. (…) …todos os críticos verdadeiramente qualificados de nosso tempo foram levados a estabelecer que os poetas cuja influência se mostra hoje a mais vivaz, cuja ação sobre a sensibilidade moderna mais se faz sentir (Hugo, Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé, Jarry), foram mais ou menos marcados por essa tradição. Tudo isso impõe limites à identificação de marxismo e surrealismo, já que Marx e Engels, de um lado, e Sade, Mestre Eckhardt ou Jarry, de outros, certamente não são a mesma coisa.

Löwy atenua essa clivagem: Se o marxismo foi um aspecto decisivo do itinerário político do surrealismo - sobretudo durante os vinte primeiros anos do movimento -, ele está longe de ser exclusivo. Desde a origem do movimento, uma sensibilidade libertária percorreu o pensamento político dos surrealistas. É como se adesão ao marxismo e sensibilidade libertária não fossem uma coisa e outra, traduzida na aproximação ao PC em 1927, e ao anarquismo, em 1949. Supondo a compatibilidade, nem Robert Desnos precisava ter-se desligado em 1927, por preferir o anarquismo ao marxismo, nem Antonin Artaud, por entender que a rebelião romântica, individual, era um caminho para a transformação do mundo.

Tratando de Benjamin Péret, o mais militante dos grandes nomes do surrealismo, Löwy observa, corretamente, que sua obra esboça uma antropologia da liberdade. Mas não menciona que, em 1946, Péret se desligou da Quarta Internacional. Essa data - associada também ao período de publicação dos poemas “utópicos” de Breton, Ode à Charles Fourier e Les États Géneraux, - é, portanto, aquela da desvinculação de surrealismo e marxismo, em qualquer uma de suas formas, modalidades e tendências.

Mas, cabe perguntar, por que o afastamento das organizações de orientação marxista isso não foi proclamado com a mesma ênfase dada à aproximação de 1927? A resposta me parece evidente: jamais Breton e seus companheiros iriam fornecer água para o moinho da reação, dando argumentos, às custas do surrealismo, que fortalecessem o outro lado no mundo da Guerra Fria, cindido entre macarthismo e estalinismo. Em Entrétiens, seus depoimentos auto-biográficos, a melhor fonte sobre o pensamento bretoniano, ele é apenas reticente, e se omite. Mas também não há nada que se assemelhe às declarações, verdadeiras profissões de fé em favor do marxismo, de vinte anos antes.

Críticos já apontaram inconsistências no pensamento de Breton. Mas o que é invocado por alguns como argumento contrário ao surrealismo em geral, e a Breton, em particular, na verdade é qualidade, argumento a seu favor, pelo que estimula e sugere, e pelas armadilhas e obstáculos à decodificação fácil, à transformação em doutrina.

Enfim, no terceiro capítulo de A estrela da manhã, sobre marxismo libertário de Breton, Löwy atenua o que nele há de contraditório e assistemático, a despeito da advertência bretoniana, em Prolegômenos… de que não era homem de sistema. Atenuadas ou omitidas as diferenças e mais, as incompatibilidades entre marxismo e surrealismo, deixa de ser estranho que o surrealismo, na versão pós-bretoniana liderada por Vincent Bounure, se ligasse à Quarta Internacional, ao que sobrou de troskismo, do qual se havia afastado em 1946. O resultado são documentos como um recente manifesto surrealista, veiculado pela Internet, sustentando o apoio à Quarta Internacional, a ruptura com o FMI e o fim do bloqueio econômico a Cuba. São boas causas. Mas, de surrealismo, mesmo, não há mais nada nesses documentos. Acabam servindo como argumento para salvar ou justificar marxismo e trotskismo, em uma inversão do que ocorria nos anos de 1930 e 40, quando a crítica de fundamentação marxista, especialmente lucacsiana, o impugnava pelo “irracionalismo”. Antes, o surrealismo tinha que justificar-se perante o marxismo. Agora, organizações de esquerda justificam-se como surrealistas.

Cabe invocar uma categoria utilizada por Löwy, o pessimismo revolucionário, crítica ao triunfalismo, mas revertendo-a. Tem que haver uma recíproca, a dúvida quanto à possibilidade da projeção do paradigma marxista, em qualquer uma de suas modalidades, resultar em outra coisa além da reedição dos autoritarismos da esfera do socialismo real. Mais ainda, quando o trotskismo continua a ser apresentado como retomada do verdadeiro leninismo, contraposta ao desvio estalinista, ignorando que a centralização na URSS, atrelando os soviets ao partido, foi obra de Lênin, com a participação ativa de Trotski.

Enfim, a discussão de marxismo e surrealismo também deveria levar em conta os argumentos sustentando a incompatibilidade de rebelião romântica e revolução marxista. Incluem aqueles de Octavio Paz, ao falar, em Conjunções e Disjunções, em tirania do futuro, em detrimento do presente, no pensamento marxista. Mas, já em 1927, Artaud defendia a autonomia da rebelião individual, romântica. Para ele, marxismo seria mais um produto da civilização ocidental, a ser combatida. Os fatos, até hoje, lhe deram razão. E, a partir de 1936, Breton e Artaud se reaproximaram.

Tuesday, June 02, 2009

MANIFESTO


“Nestes tempos de crise das bolsas, dos bancos, dos negócios, nestes tempos de falência, de desemprego em massa, em que a vida perde o seu valor, a mensagem de Nietzsche e de Jim Morrison ganha uma actualidade única. Ao homem-mercadoria, ao homem-percentagem, ao homem-número, ao homem vencido, há que opôr o homem criador, o homem que diz sim à vida, não à vidinha da submissão, não à vidinha da rotina, não à vidinha do rebanho, mas sim à vida plena, à vida alegre, à vida autêntica. É possível passar do sub-homem ao super-homem se acreditarmos que, como disse Jim Morrison, isto não passa de um jogo, de um jogo imbecil. Se num desafio de futebol um jogador, uma estrela qualquer, decidir, de repente, pontapear a bola para fora e, pura e simplesmente, abandonar o campo toda a gente vai dizer: ponham esse palhaço na rua! Mas ele responde: ora, isto não passa de um jogo, da merda de um jogo, não sei porque lhe dão tanta importância. E o que temos de fazer é isso: abandonar o jogo, deixar que façam de nós escravos, imbecis. Temos de fazer alguns sacrifícios, seguir a nossa via ("solitário, segue o caminho que conduz a ti mesmo", diz Nietzsche), descurar a sobrevivência, abandonar a máquina mas o ganho será muito superior: tornar-nos-emos livres, poetas, filósofos, super-homens. Temos de nos juntar, fazer a revolução, mas não uma mera revolução política como a de 1917, como a de 25 de Abril, uma revolução global do espírito, das consciências. Teremos de ser até algo irracionais contra a pretensa racionalidade das bolsas, dos bancos, das empresas, da economia. TEmos de derrubar todos os governos. Destruir para construir. Começar do zero. Não ouçamos os jogos eleitoralistas e tácticos dos partidos políticos, dos sindicatos e das outras organizações. Sejamos nietzscheanos, morrisonianos. Punhamos à prova os limites da realidade. SEjamos doidos! Sejamos poetas! Superemos o homem, superemos o real. Construamos a vida. Sejamos afirmadores da vida. Afastemos a morte! Afastemos Deus, o capital e o dinheiro! Brindemos a Dionisos. Construamos o Céu na Terra, o Paraíso na Terra. O mundo é nosso. Não há regras. Não há limites. Queimemos o dinheiro! Queimemos a economia! Calemos para sempre os economistas. Sejamos, como disse Nietzsche, "decifradores de enigmas". Tornemo-nos deuses em vez de carneiros. Demos caos ao caos.” A. Pedro Ribeiro